quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Moda Unissexo ou Masculinização da Moda? | Uma História sobre Género e Moda


Recentemente, tive a oportunidade de abordar no meu Mestrado o conceito de género associado à moda e, na verdade, aprendi tanta coisa que para além de ter escrito um trabalho de dez páginas, ainda ficaram palavras para me dirigir a vocês. E, por isso mesmo, hoje vamos esclarecer diversos conceitos que eu própria tenho confundido, de forma não intencional como seria de esperar, nos textos que vos escrevo. Hoje, falamos de moda e género... E de uma moda que luta por se destacar das limitações que tantas vezes socialmente nos são impostas. Falamos da moda unissexo, da moda sem género, das diferenças, das semelhanças e do que ainda falta fazer na indústria. Vamos a isso? Sinto que a minha escrita vai ser longa. 


Comecemos por distinguir, logo à partida, dois conceitos que parecem ser tantas vezes usados como sinónimos quando, na verdade, não o são. Sexo e género. O primeiro, tão difícil de pronunciar que parece que evitamos a palavra a todo o custo, refere-se ao corpo e à sua constituição, refere-se à anatomia que nos foi concedida no momento da nossa criação (porque sim, quando falamos de bebés, as revelações não são de género, mas sim de sexo). O segundo, já mais usual de ouvir, refere-se a um conceito socialmente construído e que se baseia em premissas previamente definidas para os dois sexos. Para facilitar a distinção, ninguém pode afirmar que uma pessoa é do sexo feminino por estar a usar um vestido rosa - esse pré-conceito não é fruto da biologia, mas sim de uma construção social.


E qual é o papel da moda em tudo isto? Bem, desde sempre que a moda tem feito a sua escolha na identificação por identidade de género. A moda tanto pode ajudar à perpetuação de ideias e dogmas sociais, como tem o poder de romper com eles. Foi isso que aconteceu quando os primeiros conceitos associados a uma moda sem género começaram a dar frutos entre os designers japoneses dos anos 80. Aqui, começou-se a falar de uma moda que não divide, que não separa, que não distingue e que, no fundo, liberta. Mas não, este não é bem o começo da história. Durante séculos e séculos temos assistido a uma aproximação lenta a este conceito. É impossível falar de moda e género sem falar dos saltos altos que Louis XIV, o rei-sol, usava na sua corte. É impossível falar de moda e género sem falar da primeira vez que uma mulher vestiu calças. É impossível falar de moda e género sem falar da quantidade de vezes que o sexo feminino quebrou barreiras em busca da maior liberdade que a roupa masculina lhe poderia dar.



Sim, moda masculina. Comecemos agora por aí. Costumo definir a ideia de género com a ajuda de uma simples analogia: quando nascemos, existem duas caixas - cada uma destinada a um dos dois géneros commumente referidos - e nós somos colocados numa delas. Dentro de cada caixa existe um mundo de oportunidades que guiará o nosso caminho a vários níveis, desde aquilo com que brincamos a que papel iremos ter no nosso seio familiar do futuro. Quando a moda começou a evitar a separação de género, uma das caixas desapareceu. Agora já não existiam duas caixas, mas sim uma: a caixa unissexo (e perdoem o criador deste conceito, pois claramente este não sabia que a caixa se deveria chamar uni-género para que o termo estivesse verdadeiramente correto). Ora, o que é que acontece quando os dois géneros são colocados num único espaço, servindo as mesmas oportunidades e destinos? A moda apenas imita a sociedade e, tal como na segunda, um género prevaleceu sobre o outro. As coleções unissexo, na verdade, vieram trazer à indústria um fenómeno que lentamente já se havia infiltrado na mesma - a masculinização da moda. 


Pessoalmente, não me considero contra o conceito de unissexo, mas sinto que este apenas veio resolver uma parte do problema: já é socialmente aceitável ver alguém do sexo feminino com calças azuis, mas quando será igualmente aceitável ver alguém do sexo masculino com um vestido cor de rosa? Infelizmente, estas coleções ainda não nos trouxeram isso e, por esse motivo, um novo conceito na moda tinha de emergir. E aqui finalmente chegamos ao ponto onde eu tanto queria chegar: moda sem género. Para explicar este conceito, vamos novamente recorrer à analogia das caixas. Se o unissexo veio proceder a uma junção das duas caixas, o que a moda sem género veio fazer foi destruí-las. Aqui, a indústria perde os dogmas e os preconceitos, perde as restrições e as divisões, mas, acima de tudo, ganha liberdade. Liberdade para vestirmos o que queremos vestir. Liberdade para sermos quem queremos ser. Liberdade para irmos além da caixa que foi construída à nossa volta no momento em que nascemos. Liberdade. E que palavra tão bonita.


xoxo,

M. 


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