quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A Sustentabilidade é uma Tendência?


A moda respira tendências: desde as calças de boca de sino até aos padrões animal, passando pelo acidente que foram as Crocs, tudo nesta indústria é um vai-e-vem incessante. Por isso mesmo, com o boom das lojas em segunda mão e uma maior preocupação dos consumidores face a materiais e modos de produção, é normal olharmos para sustentabilidade como mais um daqueles capítulos que deixam a sua marca, mas que também não passam apenas disso... Um capítulo de um livro inteiro. Então, será justo dizer que uma pessoa que procura consumir de forma ética e sustentável mudará de ideias tão rapidamente quanto alguém que olha para o seu look dos anos 2000 com uma mistura de riso e vergonha? Vamos começar por colocar as coisas noutra perspetiva.


E se a tendência não for a sustentabilidade mas sim o consumo em excesso? 


Fazer uma pequena viagem no tempo é suficiente para percebermos que só nas últimas décadas é que o comum mortal é capaz de ter um armário com mais roupas do que aquelas que precisará para uma vida inteira. Antes disso, era quase preciso ser-se da realeza para ter acesso a pouco mais do que alguns trapos por ano. E porquê? As roupas eram caras: os materiais eram caros e, muitas vezes, de difícil extração; a produção era realizada por artesãos e não máquinas de produção em série; cada peça era feita para durar o máximo possível (e não ser deitada ao lixo passados 3 anos). 


A fast fashion veio, quer queiramos quer não, revolucionar o mundo da moda. Agora podemos usar quantos outfits querermos sem prejudicar a nossa vida financeira, agora usamos cada peça menos tempo, pois facilmente a substituímos por outra, agora o consumo faz parte da rotina de domingo e já não é visto como um luxo ou algo inacessível. E claro que todos sabemos que nada disto é essencial à nossa vida, daí este tipo de consumo ser visto como algo que está em excesso


Se a sustentabilidade fosse uma tendência, não seríamos capazes de consumir como agora...


Pegando a mesma questão por outra perspetiva: se gerações passadas tivessem consumido recursos naturais à velocidade a que nós o fazemos, será que ainda haveria recursos para consumir? Provavelmente não. O modo de vida sustentável define-se por uma utilização daquilo que o Planeta nos dá adequada à capacidade de regeneração do mesmo - e esse foi o modo de vida daqueles que nos antecederam (não uma tendência que está a ser implementada agora). 


Na verdade, o que para nós agora é uma escolha - consumir mais ou menos - será para as gerações futuras uma obrigação. A sustentabilidade será uma obrigação... Ou talvez a privação de recursos seja a única forma de resolver os erros do passado, quem sabe? Dizem que a moda é um vai-e-vem incessante, e talvez o que o futuro nos reserve seja precisamente isso: um regresso ao passado, aos armários que não revelam mais do que o necessário, aos artesãos respeitados pela sua arte, aos recursos que se consomem por amor e não por conveniência. 


E não, a sustentabilidade não é um ataque à moda... É a sua salvação.


"Quem segue a tendência da sustentabilidade, não ama a moda", dizem os cifrões da indústria. Mas eu digo o contrário. Quem segue a "tendência" da sustentabilidade, está a dar o devido valor à indústria. Está a dar valor aos materiais e ao seu ritual de extração. Está a dar valor a quem faz arte e pretende que essa arte seja devidamente remunerada. Está a dar valor à peça, em vez de a ver como um bem descartável que irá parar ao caixote do lixo mais próximo assim que uma determinada tendência deixar de fazer sentido. A sustentabilidade é o único futuro da moda... Isto é, se quisermos preservar os materiais, a arte e quem a faz. Ou será o amor pela indústria medido pelo lucro que a fazemos ganhar? 


xoxo,


M.


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