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E se tudo fosse ao contrário? || Um Desabafo sobre Feminismo


Olá! Escrevo-vos hoje esta publicação como uma maneira de aclarar o turbilhão de pensamentos que me preenche desde que larguei aquele livro. Sim, porque isto também será uma pequena review de um livro - juntamente com um desabafo, uma colocação de diversas questões, uma forma de reflexão conjunta. "The Power" de Naomi Alderman foi o livro proposto e avaliado num exame oral que tive este semestre da faculdade, e mal eu sabia que um livro assim me iria marcar tanto... Mas, sem mais demoras, vamos deixar-nos de rodeios e passar para a publicação de hoje!


Desde que me lembro, que me considero uma feminista. Tenho memórias claras de andar no 11º ano e fazer apresentações orais sobre o tema, de modo a tentar educar os meus colegas para o assunto - cada um faz o que pode dentro da sua pequena bolha, não é? É assim que se muda o mundo... Ou, pensava eu que estava a mudar o meu mundo, um passo de cada vez. Para juntar a estas memórias, tenho ainda presente o momento em que, num dia aborrecido, dei por mim a ver um documentário intitulado "The Red Pill", onde uma feminista, tal como eu, decidiu entrar no núcleo dos movimentos pelos direitos dos homens, acabando toda a sua jornada com a frase "A partir de agora, já não me consigo intitular feminista." Se eu senti o mesmo? Não, mas o documentário ficou sempre num canto da minha mente, à espera do momento certo para voltar ao de cima.



Cartaz do documentário "The Red Pill" (2016)


E voltou. Voltou quando li o "The Power".

Mas, para que percebam bem, deixo-vos agora um resumo da história deste livro. Nesta distopia futurística, vemos uma sociedade onde, ao nascerem, as crianças do sexo feminino ganham poderes - uma espécie de eletricidade presente no seu corpo, que pode ser desenvolvida, controlada e até "acordada" em mulheres mais velhas. Resultado? Uma completa superioridade do sexo feminino face ao sexo masculino, que se propaga um pouco por todo o mundo. Em países onde os direitos das mulheres foram desde sempre negados, ocorrem autênticas revoltas contra os governos e soberanos. Em países ditos "desenvolvidos", como os próprios EUA, verifica-se uma separação dos sexos em locais como escolas, transportes públicos, tudo isto como forma de proteção dos mais fracos - isto é, os homens. 



Ou seja, o "The Power" demonstra uma sociedade onde os homens se encontram subjugados ao poder das mulheres, onde os homens são o sexo fraco, onde as mulheres se revoltam contra as instituições dos seus países e erguem as suas próprias. Mas, qual será o resultado disto? E se tudo fosse ao contrário? O sexo feminino seria capaz de usar ponderadamente o seu poder ou viveríamos numa sociedade semelhante à que temos hoje, mas dominada pelo lado oposto?

Quando agarrei no livro pela primeira vez, quando li as primeiras páginas, acreditei que viveríamos numa sociedade diferente - uma sociedade onde não haveria qualquer tipo de subjugação de um sexo ao outro, uma sociedade onde as diferenças estariam minimizadas. Mas, à medida que avançamos na história e vamos acompanhando a evolução das personagens, percebemos que, talvez, (spoiler alert) não seja bem assim. Este livro demonstra-nos as consequências do poder e a facilidade com que este toma conta das nossas intenções iniciais: aquele poder que, inicialmente, era utilizado para reverter o patriarcado, tornou-se num meio de inferiorização do sexo masculino, numa forma de castigar, punir, torturar os mais fracos, apenas "porque sim".




E foi este desenvolvimento, o acompanhar desta história, que me deixou a pensar. Deixo-vos ainda aqui uma frase da própria autora, referida numa entrevista, que também se deixou ficar no canto da minha cabeça, à espera do momento certo para voltar ao de cima:

"If you and I lived in a world where women were dominant, would you be telling yourself: This is very unjust; I will fight for the rights of men?"

// "Se tu e eu vivêssemos num mundo onde as mulheres dominassem, dirias a ti mesmo: Isto é muito injusto; vou lutar pelos direitos dos homens?"//


A resposta à minha questão é "não sei", pois, apesar de sempre ter achado orgulhosamente que sim, penso que seja um pouco hipócrita da minha parte dizê-lo sem efetivamente viver um momento onde as minhas palavras se tornem ações. Porque, intencionalmente, todos queremos o melhor para o mundo: o problema aparece no momento em que temos realmente poder para o mudar, pois aí nem todos são capazes de seguir as suas intenções iniciais. 



Assim, termino o meu desabafo com a ideia final que sempre lutei para transmitir e a qual tive de me esforçar para relembrar ao longo da leitura deste livro. Porque é que eu não irei parar de me intitular feminista?

Porque o feminismo é um movimento que defende a igualdade - e não a superioridade, seja para que lado for. É uma ideologia que defende a partilha do poder - e não a separação do poder em sexos, onde um é o dominante e o outro é o dominado. É uma palavra que não deve ser associada a nenhum "lado", pois, sendo homem ou mulher, nada nos impede de lutar por uma sociedade onde as oportunidades sejam justas para todos os seres humanos, independentemente de sexos, raças, etnias, religiões e todas aquelas características que passamos uma vida inteira a discutir. 

E assim termino o meu desabafo, que já ficou grande demais. Agradeço a todos os que tiveram a paciência de chegar até aqui e agora espero que comecemos um debate saudável nos comentários, onde todos possamos deixar um pouco da nossa opinião.

xoxo,


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8 comentários:

  1. Devorei cada palavra e identifiquei-me tanto com as tuas palavras. Igualidade, simplesmente, é o que procuramos. O The Power vai definitivamente para a minha wishlist :)

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    1. Fico tão feliz que tenhas gostado e fico ainda mais feliz em saber que absorveste a mensagem exatamente como eu a queria passar. É um ótimo livro, penso que vais adorar!
      Beijinhos

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  2. Infelizmente a prespetiva do livro "The Power" é uma realidade que poderá vir a fazer parte da sociedade, porque na época em que vivemos ser feminista está na moda e estar na moda é uma permanente importante (infelizmente) na nossa sociedade, o que definitivamente cria muitos mais conflitos que avanços. Isto porque a maioria das pessoas que se dizem feministas não sabem sequer a definição base deste construto. E é esta realidade furjada que pode encaminhar a movimentos errados e engrandecer valores opostos.
    Mas eu sou totalmente a favor da igualdade entre as pessoas independente de qualquer fator sociodemografico que nos caracterize, tal e qual como disses-te! Até porque o feminismo não se aplica só entre géneros, também se pode aplicar dentro do mesmo género - e este ponto é muito importante ser evidenciado porque faz toda a diferença. Quando ouço alguém que se diz feminista dizer "Mereço mais que aquela. Ela é uma desgraçada", deixa-me seriamente assustada (o meu pensamento é: não vamos confundir amor-próprio com hipocrisia, por favor!)

    Bem fica aqui a minha opinião que vai de encontro com a tua, obrigada por esta partilha! Achei super interessante a conjugação de ideias que aqui fizeste e é muito importante cada vez mais alertar e criar esta dinâmica de saber criar uma opinião, principalmente como assuntos como este que podem levar facilmente à criação de movimentos extremistas quando incompreendidos.

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    1. Gostei bastante de ler o teu ponto de vista, pois deixaste-me a pensar em coisas que nunca sequer tinham chegado à minha mente. Mas, o mais importante foi esse ideal da igualdade dentro do mesmo género: acho importantíssimo divulgarmos e promovermos essa ideia, pois o ódio feminino é das coisas que mais nos atrasa enquanto "grupo". E, já agora, muito obrigada pelo teu comentário, foi um ótimo complemento a esta publicação!
      Beijinhos

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  3. Fiquei muito curiosa com este livro. De facto igualdade é o que cada uma de nós procura.
    Beijinhos
    http://virginiaferreira91.blogspot.com

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    1. É um livro mesmo muito bom, vale muito a pena adicionares à tua lista de leitura!
      Beijinhos

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  4. Ainda não li, quero ler este verão... este é o tipo de livro que me deixa ansiosa até que eu pegue nele e acabe de o ler ahah
    Beijinhos*

    https://little-cherry-wine.blogspot.com/

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    1. Senti exatamente o mesmo, não conseguia parar de ler e só queria saber o fim. Penso que vais gostar, arrisca!
      Beijinhos

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Thank you so much!