segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Lucro vs. Sustentabilidade: Uma Dicotomia Incontornável


Facto adquirido: para uma peça ter um preço baixo, o seu custo de produção tem de ser baixo também, certo? Certo. Mas será esse baixo custo de produção um "sacrifício" para a marca, no sentido de tentar democratizar a moda ao mais alto nível e fazê-la chegar ao maior número de pessoas? Era isso que me faltava descobrir. Felizmente, numa das minhas recentes aulas de Mestrado, deparei-me com um breakdown dos custos de produção de uma camisola que havia sido produzida para uma das tão conhecidas marcas de fast fashion. Tal como eu já sabia, o custo de produção, nomeadamente ao nível da mão-de-obra humana, demonstrava ser um "fardo" ridiculamente baixo, tal como os materiais, que, como já seria de esperar, eram de custo reduzido. O que eu não sabia, contudo, é que mais de metade do preço final da peça se transformava em lucro puro e duro para a marca. Sim, mesmo para uma marca cujo objetivo principal é tornar o preço no fator mais aliciante para o consumidor.


Foi no meio desta descoberta que um pensamento (extremamente) utópico me pairou pela cabeça. Se as marcas de fast fashion conseguem ter uma grande margem de lucro, mesmo possibilitando preços reduzidos, porque não reduzem estas essa margem, aumentando o custo de produção, para tornar os seus produtos mais sustentáveis? Pobre Mariana, que pensamento tão tonto. 


Surpreendentemente, vou recorrer a duas teorias das relações internacionais (para quem caiu aqui de paraquedas, esta foi a minha licenciatura e tenho de fazer algum uso dela) para explicar esta dicotomia que é tão oposta na indústria da moda como a guerra e a paz são na política. Realismo e idealismo - alguma vez ouviram falar? Mesmo que não, pelos nomes podem depreender o sentido. O realismo é uma teoria que, no fundo, mantém os pés bem assentes na terra, enquanto o idealismo é o mundo dos sonhadores, dos utópicos, da Alice no país das maravilhas. Comecemos pelo negativo, mas real, para depois acabar numa nota mais otimista, que de coisas más tem estado o Céu cheio. 


O realismo na indústria da moda foi aquilo que me fez, à partida, entender que o pensamento que superficialmente havia pairado pela minha cabeça era completamente descabido. Ou será descabido na cabeça daqueles que efetivamente têm algum poder de mudança. Na realidade, diminuir os custos de produção das peças sempre teve como derradeiro objetivo obter a maior margem de lucro possível, independentemente das consequências que adviessem disso. A mudança para a produção em países em desenvolvimento, ou a partir de materiais sintéticos, foi conscientemente provocada e até vários modelos de negócio acabaram por nascer devido às vantagens que esta nova forma de produção trazia. Claro que também possibilitou que uma maior amplitude de classes tivesse acesso à indústria da moda, ao consumo, ao prazer de comprar, mas isso não justifica o porquê de marcas de luxo trocarem um "made in Italy" por um "made in China". Isso, apenas uma coisa o justifica: a sede por lucro. 


Agora, tornemo-nos idealistas, sonhadores, e enchamos o coração de esperança. Lucro e sustentabilidade parecem ser uma dicotomia incontornável, sim, pois o aumento do custo de produção que advém de uma cadeia que respeita o planeta e as pessoas não permite margens de lucro demasiado elevadas. Contudo, temos assistido a uma proliferação de marcas, seja da indústria da moda ou para além disso, que se prezam pelos valores base da sustentabilidade em todos os pontos da sua cadeia de produção. Esses negócios sobrevivem sim, mas, acima de tudo, existem, prosperam e ganham cada vez mais terreno no mercado. E como o fazem? Não veem o lucro como a sua única prioridade. Seria hipócrita da minha parte dizer que o lucro não importa, porque importa; todos sabemos que vivemos numa sociedade onde o dinheiro tem um imenso significado que nos hierarquiza e define. Mas não é a única coisa que importa. Também importam as pessoas, estejam elas nos bastidores da marca ou na loja enquanto consumidores. Também importa o ambiente, porque nenhum lucro é realmente verdadeiro se um dia tivermos de pagar pelos estragos que fizemos. Também importa o equilíbrio, a bondade, o papel social que uma marca tem e que vai muito para além do ideal de ser uma "máquina de fazer dinheiro".


Apesar disso, continuo a acreditar que lucro e sustentabilidade são, infelizmente, opostos. Não quer dizer que não se possam complementar; contudo, um terá de ser sempre superior ao outro para que uma marca possa definir o seu rumo na indústria. E enquanto a sede por lucro for superior, a indústria não mudará (apesar do idealista dentro de mim acreditar que o gatilho de uma grande mudança já foi ativado). 


xoxo,

M.

YouTube Instagram | Facebook | Pinterest | Podcast

Enviar um comentário