segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Ainda precisamos dos desfiles de moda?


Um passarinho contou-me que as semanas que vivemos correspondem a alguns dos maiores eventos da moda internacional: as semanas da moda. Foi preciso um passarinho contar-me pois, no meio de uma pandemia, parece que só há espaço para se ouvir falar do número de infeções diárias e tragédias afins que dão espaço a um negativismo geral que nos persegue como uma nuvem (sim, daquelas nuvens cinzentas dos desenhos animados que andam atrás das personagens não importa para onde vão). Se não houvesse pandemia, as ruas de Nova Iorque ter-se-iam enchido do melhor street style que alguma vez vimos. Se não houvesse pandemia, poderíamos ter quebrado mais um estereótipo na passerelle. Se não houvesse pandemia, talvez ninguém tivesse questionado se ainda precisamos dos desfiles de moda - pelo menos, no seu modelo tradicional. Mas há pandemia. E essa questão foi precisamente levantada. 

Para já, sabemos que variadas capitais da moda escolheram dar um twist ao evento da estação. Algumas passaram para o digital, outras navegaram a onda dos seus criadores. As alterações ao tradicional "desfile de moda" são inegáveis; agora, a questão que persiste é: serão estas alterações temporárias ou a pandemia veio mudar para sempre a indústria da moda?

Não sou futurologista e tentar responder a esta questão seria como dar um tiro no escuro. Todos sabemos que a pandemia é uma tendência demasiado difícil de prever. Mas se me perguntarem se ainda precisamos dos desfiles de moda, a minha resposta será sempre um grande e redondo sim. Podia tentar explicar a minha resposta com argumentos lógicos e talvez mais válidos na perspetiva do leitor; no entanto, há algo que me obriga a responder com emoções. Por isso, levo-vos agora até à primeira vez que frequentei um desfile de moda - um daqueles bem a sério. 

Foi em 2017. Tinha acabado de chegar ao Porto e uma inscrição no meio de um sonho (tornado realidade) levou-me até ao Portugal Fashion SS18. Não me lembro exatamente do criador do primeiro desfile que vi, mas, se me pedissem para adivinhar, diria Pé de Chumbo. Na verdade, acho que assisti a todos os desfiles dessa edição do PF - o bichinho da primeira semana de moda da minha vida dizia-me que eu não podia perder nada, e assim o fiz. Seja como for, lembro-me particularmente do desfile de Pé de Chumbo, onde me sentei na primeira fila... (Pobre de mim, mal eu sabia que era a única vez que me ia conseguir sentar numa primeira fila!) 

PF SS18

A música ambiente parecia uma imitação perfeita do que se passava dentro de mim - era mexida, agitada, entusiasmante. Até que, de repente, a música parou. E o meu coração também. As luzes ficaram mais fracas e algures ouvia-se a marca sonora do Portugal Fashion, seguida de uma apresentação do criador. E, do nada, começou. As modelos saíam uma por uma e eu comecei a imitar toda a gente - eles gravavam, tiravam fotos, apontavam os telemóveis, e eu fazia o mesmo. Mas à medida que as fotos iam saindo desfocadas (nunca mais subestimei o talento dos fotógrafos das semanas de moda), fui-me apercebendo de que os olhos da minha máquina fotográfica estavam a ver e a sentir todo aquele momento muito mais do que eu. 

PF SS18

Então, fiquei apenas a olhar. Aliás, muito mais do que isso. Eu senti e absorvi cada segundo, cada emoção, cada passo das modelos que mostravam algumas das peças mais bonitas que eu alguma vez vi. E, muito mais rápido do que eu esperava, vieram as palmas e a tão icónica fila final que eu conhecia dos filmes. O meu primeiro pensamento? Nunca pensei que um desfile de moda durasse tão pouco tempo; mas, na verdade, aqueles 20 minutos é que me pareciam ter passado num ápice, por estar tão absorvida no momento. 

PF SS18

Esta emoção tornou-se tão viciante quanto uma droga e, só naquele fim-de-semana, senti-a dezenas de vezes. Agora todos os anos procuro senti-la de novo. 

Peguem então no meu testemunho e apliquem-no à grande maioria das pessoas que alguma vez se sentaram numa cadeira em frente a um desfile. Algumas provavelmente já nem se lembram de como se sentiram na sua primeira vez, mas isso, infelizmente, é uma consequência do hábito. Acreditam mesmo que é possível tirar a essência da indústria a quem a ama? Não, não é. Ou pelo menos não seria assim tão fácil quanto se julga... Felizmente, da última vez que vi, a pandemia não afeta a nossa capacidade de amar.

No entanto, as mudanças são inevitáveis, principalmente no momento que vivemos. Podem colocar a moda nos ecrãs dos nossos telemóveis e computadores, podem impedir-nos de tocar nas peças antes de as comprar, podem alterar todo o conceito por detrás de uma fashion week... Mas essas ainda têm uma esperança de vida bem alargada.

Para acabar esta publicação em jeito de apelo, convido-vos a conhecer um bocadinho da moda nacional que estará ao alcance de todos (vantagens das alterações provocadas por um tal de vírus) no final desta semana. A ModaLisboa, ou Lisboa Fashion Week, será transmitida de 7 a 11 de outubro em canais virtuais, que podem ser encontrados no seu site e redes sociais. Deixo abaixo o calendário para que possam planear esta vossa visita digital pelo talento português.

5ªFEIRA, 8 OUTUBRO

12H00 BUZINA | LAB
14H00 JOÃO MAGALHÃES | LAB
15H00 NUNO BALTAZAR
16H30 VALENTIM QUARESMA
18H00 RICARDO PRETO
 

6ªFEIRA, 9 OUTUBRO

12H00 AWAYTOMARS 
14H00 BÉHEN | LAB
15H00 DUARTE | LAB
16H30 CONSTANÇA ENTRUDO x TRIMALHAS | LAB
18H00 LUÍS CARVALHO
 

SÁBADO, 10 OUTUBRO

12H00 KOLOVRAT
14H00 SASKIA LENAERTS | WORKSTATION
15H00 RICARDO ANDREZ
16H00 OPIAR | WORKSTATION
17H00 NUNO GAMA
17H30 FILIPE AUGUSTO | WORKSTATION
18H00 SANGUE NOVO
 

DOMINGO, 11 OUTUBRO

12H00 CAROLINA MACHADO | LAB
14H00 ANTÓNIO CASTRO | WORKSTATION
15H00 GONÇALO PEIXOTO
16H30 HIBU | LAB
17H00 OLGA NORONHA | LAB
17H30 ARCHIE DICKENS | WORKSTATION
18H00 CARLOS GIL


E tu? Achas que ainda precisamos dos desfiles de moda?

xoxo,

M.

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