quarta-feira, 10 de junho de 2020

Deve a Moda Intervir na Política?


O homicídio de George Floyd no passado mês e consequente reacender da campanha ativista "Black Lives Matter" levou, mais uma vez, a fazer-nos questionar sobre qual deve o posicionamento da moda - e das suas marcas - em questões político-sociais que levantam dois lados bastante antagónicos. Ou seja, se as marcas de moda devem efetivamente posicionar-se num dos lados da linha ou se, pelo contrário, é preferível encontrarem um meio termo.

Esta é uma questão nada recente, e enquanto uns acreditam que a moda é demasiado superficial para poder abordar assuntos tão complexos da nossa sociedade, outros utilizam esta indústria como uma arma ativista, recheada de ideais políticos. Basta, por exemplo, recuarmos até 1966, aquando da criação do Le Smoking por Yves Saint Laurent, para percebermos como um simples fato conseguiu deixar uma marca tão vincada no caminho da luta pelos direitos das mulheres. Ou, mais recentemente, como os acontecimentos despoletados pela morte de um cidadão negro pelas mãos de polícias americanos levaram à união, através de uma campanha publicitária, de duas marcas historicamente rivais na inústria: a Adidas e a Nike. No entanto, mesmo face ao pedido desesperado da comunidade mundial pela tomada de uma ação conjunta anti-racista, muitas foram as marcas que preferiram não se pronunciar sobre a questão, deixando os seus consumidores sem uma resposta clara sobre os seus ideais.

Imagem representativa da campanha ativista a favor do movimento Black Lives Matter da Nike e Adidas.

Mas, afinal, deve uma marca ter ideais políticos?
E, se os tiver, quais são as melhores maneiras de os demonstrar?
O que leva uma marca a preferir não se pronunciar em situações de injustiça social?

A Moda Deve Andar de Mãos Dadas com a Política
Argumentos Contra
  • Sempre que uma marca tomar um partido, as pessoas com opiniões contrárias irão deixar de consumir a marca em questão. Obviamente que, face a uma questão fragmentária, diferentes consumidores terão opinião diversas - logo, o facto de uma marca se colocar de um dos lados da linha levará consequentemente ao afastamento dos consumidores que não concordam com a posição tomada. E este é o principal motivo pelo qual as marcas escolhem não se pronunciar face a questões políticas, pois não querem que nenhum dos seus clientes diminua o seu consumo (ou deixe de consumir) devido a questões alheias à própria marca.
  • A superficialidade da moda não permite à indústria entrar em questões fora da sua esfera de interesses. Um argumento mais comum aos consumidores da indústria, mas que, mesmo assim, são uma forma das marcas se "desculparem" face a uma não-tomada de posição. Na verdade, a ideia de que a moda é uma indústria extremamente superficial (pois apenas se baseia em roupa e aparências, segundo os defensores deste argumento) é aquilo que a afasta de sequer pensar em se pronunciar relativamente a questões sociopolíticas, dado não ter a legitimada de tomar um partido.

Argumentos a Favor
  • A moda pode ser uma forma eficaz de ativismo. São várias as marcas que se associam a determinadas causas e que acabam por criar coleções ou produtos ligados/as aos ideais que defendem. É interessante ver como uma campanha publicitária ou até mesmo uma peça na passerelle podem criar um burburinho tão grande na sociedade, colocando muitas vezes questões importantes e pertinentes em cima da mesa. Hoje em dia, é possível ver vários exemplos de moda ativista e é algo cada vez mais recorrente, principalmente entre criadores mais jovens.
Coleção da designer portuguesa Micaela Sapinho para a secção Sangue Novo da ModaLisboa (2016).

  • As marcas devem usar a sua voz, influência e plataformas para abordar problemas e injustiças sociais. Mais dentro do contexto dos últimos dias, é importante destacar o acesso que a maioria das marcas tem a plataformas com uma tão grande influência. Consequentemente, estas sentem-se na obrigação de utilizar essa influência para o "bem" - isto é, levantar a sua voz face a questões de injustiça ou problemas sociais. Tudo isto pode ter um papel bastante pertinente e, neste caso, uma tomada de posição poderá mesmo levar a mudanças de comportamento significativas, seja entre consumidores, empregadores, trabalhadores ou marcas concorrentes.

A Minha Opinião

Deve a moda andar de mãos dadas com a política? No meu ponto de vista, sim e não, pois depende do que está em jogo. 

Quando estamos perante situações de problemática social, que, direta ou indiretamente, afetam uma grande parte da população, é importante que as marcas tenham a consciência de que têm uma voz e uma influência que podem - e devem! - utilizar para o bem comum. Em muitos casos, a moda tem a capacidade de se inserir numa onda ativista poderosa e eficaz, não só pelo peso que tem na sociedade, mas também pela forma como a sua posição afetará as restantes marcas da indústria e os seus consumidores. Quando a sua posição tem a capacidade de marcar a diferença na situação atual, é quando esta deve ser tomada. 

No entanto, não acredito que esta seja sempre a realidade... Nem sempre uma injustiça social está em causa - e quando não está, é quando as marcas não devem tomar um partido. Escolher e afirmar uma posição política apenas porque sim é algo que poderá resultar numa divisão acentuada do mercado e de quem consome os seus produtos, afastando muitas vezes clientes, fornecedores e patrocinadores. Até não estar em causa um bem social comum (ou inerente à indústria da moda), as marcas não devem fincar o seu pé num dos lados da linha, a não ser que essa posição política seja, à partida, uma parte do ADN da marca, pois aí a história é diferente. 

E qual é a tua opinião? Deve ou não a moda complementar e intervir em situação políticas atuais? 

xoxo,

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